terça-feira, 29 de setembro de 2015

Y. B. S. - Eu me achava fraco por ter depressão

Então, segundo Yasmine, se eu escrever a primeira linha, o resto sai fácil. Então, começou. Não sei bem como escrever este texto. Não sei se foco em coisas da TCC ou se volto mais para alguém que não tem conhecimento sobre o assunto. Acho que vou só mostrar como foi que passei pela depressão. Ou como a depressão passou por mim.
  Estava morando sozinho, pois venho de uma cidade do interior e fazendo faculdade. Era terceiro ano de medicina quando os sintomas estavam mais intensos. Era terrível chegar em casa e terrível deitar para dormir. Era difícil interagir com os colegas, era uma luta atender pacientes. Meu humor era constantemente baixo, o semblante fechado, não me alegrava ou empolgava com os assuntos, achava que não ia dar em nada. Dormia frequentemente às 3 da manhã, mas não tinha caído a ficha que tinha insônia, ou que tinha medo de dormir. Minha produtividade estava negativa, além do fato de que ao chegar em casa não queria fazer nada. Nem mesmo coisas que antes adorava fazer. A depressão tirou o prazer das coisas que eu gostava. Foi o único momento, em toda minha graduação, que questionei largar o curso. Não via como o futuro podia ser diferente, ou se teria mudança. Passei apenas a existir, uma existência triste, como momentos fugazes de alegria, quando, por improviso ou surpresa, saia com amigos.
Eram poucos momentos, porque eu não queira ver ninguém. Estava me isolando sem perceber, o que só piorava minha situação.
A procura por ajuda se iniciou 3h da manhã, após mais uma noite insone. Liguei para os meus pais, que moram no interior, dizendo que estava triste e chorei no telefone. Eles prontamente vieram pra cá no fds seguinte, e eu marquei uma consulta com o psiquiatra.
Meu psiquiatra, uma excelente pessoa e excelente médico, me tranquilizou sobre a situação e me diagnosticou com depressão ansiosa. Recebi o antidepressivo mais recente no mercado, que melhor trataria minha condição e praticamente sem efeitos colaterais. E tem ação contra a insônia! E no primeiro comprimido! Foi muito bom tomar aquele remédio e ter uma boa noite de sono, sem ficar lamentando, remoendo o dia perdido, o dia improdutivo, o acumulo de assuntos e a falta de perspectiva. Eu tinha medo de dormir porque sabia que esses pensamentos iam povoar minha cabeça.
A semanas foram passando. Recuperei a agilidade, a tristeza passou, o sono melhorou. Só contei para uma amiga da minha depressão. E isso apenas porque li na receita do medicamento que nas primeira duas semanas de tratamento as chances de suicídio aumentam, e que era bom avisar alguém que eu tinha começado a medicação. E pedi para ela não falar nada. Me achava fraco por ter depressão, menor, inferior. Não aceitava bem minha condição e inclusive deixava de perguntar coisas para meu psiquiatra, que percebia que eu estava escondendo coisas.
Houve então, um momento chave. Meu professor, em reunião com a equipe, disse que passou as últimas duas semanas ausente porque estava com uma depressão brava. Disse que estava tomando duas mediações e fazendo terapia. Mas que já tava pronto pra tomar as rédeas da situação. Ver alguém que eu admirava e respeitava, passando pela mesma situação que eu, foi fundamental para começar a mudar meu pensamento. Na mesma semana conversei com ele, e disse de minha situação parecida. Foi bastante gentil e meu deu o número de sua terapeuta. Que demorei 2 meses para contatar.
Tive que passar 2 meses sem mudanças no meu quadro para entender que precisava de mais um tratamento. Foi assim que liguei para Yasmine e marquei uma consulta. Na nossa primeira consulta houve uma confusão, eu errei o prédio, cheguei 30 minutos atrasado, pelo menos, um paciente desmarcou, e outro ela disse pra não ir e por fim acabei com cerca de dois horários para mim. Foi algo que eu nunca tive, em toda a minha vida, alguém para quem pudesse falar o que me incomodava de fato, o que me preocupava, chorar sem recriminado ou ter receio de dizer algo. Cerca de 4 meses após meu diagnóstico, comecei a fazer TCC.
A TCC me proporcionou tanta coisa, que temo que não consiga dizer tudo o que ganhei. Ou que não vou conseguir mostrar como meus pensamentos impediam que eu melhorasse.
Bem, uma grande mudança veio ao descobrir as distorções cognitivas. As distorções são pensamentos automáticos. Eles são pensamentos baseados em uma prerrogativa falsa, geralmente negativa, que muda seu humor bruscamente. Todo mundo teve, tem e terá durante toda a vida. Mas na depressão, eles aumentam muito de frequência e tornaram meu humor muito variável, de neutro ou tristeza basal para intensamente puto da vida, ou intensamente frustrado, ou intensamente triste. Não existe meio termo na depressão. Qualquer raiva, dor, frustração, aborrecimento se tornam os piores em questão de segundos. E depois do sentimento vem muita culpa e tristeza. É um espiral de sentimentos negativos. Mas quando eu vi que meu humor mudava muito, por causa de um pensamento falso, isso foi um marco. Toda vez que meu humor mudava de uma hora pra outra, eu buscava meu último pensamento, para saber se tive uma distorção. Se eu tivesse (sempre era) então não tinha porque ficar triste ou com raiva, e me tranquilizava. Mas isso pedia um esforço mental intenso e permanente, que nem sempre eu conseguia manter. Não dá pra ser vigilante toda hora. Por isso demora pra se curar da depressão.
Durante a TCC, uma situação comum era a dúvida. Se o que eu estava fazendo, ou pensando, era meu mesmo ou por causa da depressão. Imagine o esforço mental, de perceber isso e raciocinar. A todo instante. A gente não para de pensar, e eu tentava ser vigilante com minha depressão a maior parte do tempo (às vezes conseguia). Tinha uma festa e eu não sabia se realmente não queria ir ou se era a depressão me dizendo pra não ir. Estava cansado ou estava deprimido? Eram várias dessas na semana. Com o tempo, tentei a ir contra tudo que podia ser a depressão. Era melhor pecar pelo excesso que pela falta, mas nem sempre era possível. Tinha vezes que eu não percebia que era a depressão que mandava eu agir assim.
Na TCC eu descobri que tinha esquema de subjugação. No meu caso, eu não impunha minha vontade, não conseguia dizer não para nenhum pedido, por mais que isso me prejudicasse e ficava frustrado e com raiva por não conseguir dizer não. Descobrir que eu posso dizer não para as pessoas foi lindo. Libertador. Dizer a sua vontade, negar um pedido simplesmente por não querer? Antes era um absurdo para mim. Mas agora eu posso dizer Não, porque em minha casa tem um saco de laranjas para descascar, ou que seja o motivo para eu negar o pedido. É claro que vc muda, as pessoas às suas volta não. Minha família me cercou dizendo que eu estava chato, egoísta, não pensava nos outros e uma centena de outros adjetivos e manipulações para eu voltar a ter aquele comportamento, de dizer sim para todos. Eu estava me tornando assertivo, e uma das formas de saber se estou sendo assertivo é se o outro fica na defensiva, se irritando ou mudando de assunto. Confesso que dava um prazer perverso ao ser assertivo e ver o outro imediatamente ficar na defensiva. Era o sinal que estava fazendo certo.
Me tornar mais assertivo, perceber que eu posso ter sentimentos e demonstra-los, que isso não é um sinal de fraqueza, falar não e não me culpar depois, foram grandes aprendizados na TCC. Com posse disso eu pude finalmente me libertar das últimas amarras da depressão. Meu futuro se torno claro, onde antes tudo era cinza, a tristeza agora não era mais minha companheira. Estava bem ágil, meu curso era cada vez mais empolgante, e a solidão deixou de ser um momento opressor e culposo, de mais frustrações, para ser uma companheira tranquila, e boa de se trabalhar.
Fiquei 1 ano medicado. 1 ano de terapia para me sentir apto pra falar que estou curado da depressão. Estive na merda dos sentimentos, me achando sem saída, para então tomar as rédeas de minha vida, a posse completa! Aprendi tanto, mas tanto, que estas páginas não são suficientes para descrever.

E o rapaz que iniciou o tratamento jamais imaginaria que ia ficar tão bom, tão saudável, tão apto a viver a vida! E efetivamente ter controle do que cabe a ele. E isso, isso não tem preço.