Então, segundo Yasmine, se eu
escrever a primeira linha, o resto sai fácil. Então, começou. Não sei bem como
escrever este texto. Não sei se foco em coisas da TCC ou se volto mais para
alguém que não tem conhecimento sobre o assunto. Acho que vou só mostrar como
foi que passei pela depressão. Ou como a depressão passou por mim.
Estava morando sozinho, pois venho de uma cidade do interior e fazendo
faculdade. Era terceiro ano de medicina quando os sintomas estavam mais
intensos. Era terrível chegar em casa e terrível deitar para dormir. Era
difícil interagir com os colegas, era uma luta atender pacientes. Meu humor era
constantemente baixo, o semblante fechado, não me alegrava ou empolgava com os
assuntos, achava que não ia dar em nada. Dormia frequentemente às 3 da manhã,
mas não tinha caído a ficha que tinha insônia, ou que tinha medo de dormir.
Minha produtividade estava negativa, além do fato de que ao chegar em casa não
queria fazer nada. Nem mesmo coisas que antes adorava fazer. A depressão tirou
o prazer das coisas que eu gostava. Foi o único momento, em toda minha graduação,
que questionei largar o curso. Não via como o futuro podia ser diferente, ou se
teria mudança. Passei apenas a existir, uma existência triste, como momentos
fugazes de alegria, quando, por improviso ou surpresa, saia com amigos.
Eram poucos momentos, porque eu
não queira ver ninguém. Estava me isolando sem perceber, o que só piorava minha
situação.
A procura por ajuda se iniciou 3h
da manhã, após mais uma noite insone. Liguei para os meus pais, que moram no
interior, dizendo que estava triste e chorei no telefone. Eles prontamente
vieram pra cá no fds seguinte, e eu marquei uma consulta com o psiquiatra.
Meu psiquiatra, uma excelente
pessoa e excelente médico, me tranquilizou sobre a situação e me diagnosticou
com depressão ansiosa. Recebi o antidepressivo mais recente no mercado, que
melhor trataria minha condição e praticamente sem efeitos colaterais. E tem
ação contra a insônia! E no primeiro comprimido! Foi muito bom tomar aquele
remédio e ter uma boa noite de sono, sem ficar lamentando, remoendo o dia
perdido, o dia improdutivo, o acumulo de assuntos e a falta de perspectiva. Eu
tinha medo de dormir porque sabia que esses pensamentos iam povoar minha
cabeça.
A semanas foram passando.
Recuperei a agilidade, a tristeza passou, o sono melhorou. Só contei para uma
amiga da minha depressão. E isso apenas porque li na receita do medicamento que
nas primeira duas semanas de tratamento as chances de suicídio aumentam, e que
era bom avisar alguém que eu tinha começado a medicação. E pedi para ela não
falar nada. Me achava fraco por ter depressão, menor, inferior. Não aceitava
bem minha condição e inclusive deixava de perguntar coisas para meu psiquiatra,
que percebia que eu estava escondendo coisas.
Houve então, um momento chave.
Meu professor, em reunião com a equipe, disse que passou as últimas duas
semanas ausente porque estava com uma depressão brava. Disse que estava tomando
duas mediações e fazendo terapia. Mas que já tava pronto pra tomar as rédeas da
situação. Ver alguém que eu admirava e respeitava, passando pela mesma situação
que eu, foi fundamental para começar a mudar meu pensamento. Na mesma semana
conversei com ele, e disse de minha situação parecida. Foi bastante gentil e meu
deu o número de sua terapeuta. Que demorei 2 meses para contatar.
Tive que passar 2 meses sem
mudanças no meu quadro para entender que precisava de mais um tratamento. Foi
assim que liguei para Yasmine e marquei uma consulta. Na nossa primeira
consulta houve uma confusão, eu errei o prédio, cheguei 30 minutos atrasado,
pelo menos, um paciente desmarcou, e outro ela disse pra não ir e por fim
acabei com cerca de dois horários para mim. Foi algo que eu nunca tive, em toda
a minha vida, alguém para quem pudesse falar o que me incomodava de fato, o que
me preocupava, chorar sem recriminado ou ter receio de dizer algo. Cerca de 4
meses após meu diagnóstico, comecei a fazer TCC.
A TCC me proporcionou tanta
coisa, que temo que não consiga dizer tudo o que ganhei. Ou que não vou
conseguir mostrar como meus pensamentos impediam que eu melhorasse.
Bem, uma grande mudança veio ao
descobrir as distorções cognitivas. As distorções são pensamentos automáticos.
Eles são pensamentos baseados em uma prerrogativa falsa, geralmente negativa,
que muda seu humor bruscamente. Todo mundo teve, tem e terá durante toda a
vida. Mas na depressão, eles aumentam muito de frequência e tornaram meu humor
muito variável, de neutro ou tristeza basal para intensamente puto da vida, ou
intensamente frustrado, ou intensamente triste. Não existe meio termo na
depressão. Qualquer raiva, dor, frustração, aborrecimento se tornam os piores
em questão de segundos. E depois do sentimento vem muita culpa e tristeza. É um
espiral de sentimentos negativos. Mas quando eu vi que meu humor mudava muito,
por causa de um pensamento falso, isso foi um marco. Toda vez que meu humor mudava
de uma hora pra outra, eu buscava meu último pensamento, para saber se tive uma
distorção. Se eu tivesse (sempre era) então não tinha porque ficar triste ou
com raiva, e me tranquilizava. Mas isso pedia um esforço mental intenso e
permanente, que nem sempre eu conseguia manter. Não dá pra ser vigilante toda
hora. Por isso demora pra se curar da depressão.
Durante a TCC, uma situação comum
era a dúvida. Se o que eu estava fazendo, ou pensando, era meu mesmo ou por
causa da depressão. Imagine o esforço mental, de perceber isso e raciocinar. A
todo instante. A gente não para de pensar, e eu tentava ser vigilante com minha
depressão a maior parte do tempo (às vezes conseguia). Tinha uma festa e eu não
sabia se realmente não queria ir ou se era a depressão me dizendo pra não ir.
Estava cansado ou estava deprimido? Eram várias dessas na semana. Com o tempo,
tentei a ir contra tudo que podia ser a depressão. Era melhor pecar pelo
excesso que pela falta, mas nem sempre era possível. Tinha vezes que eu não
percebia que era a depressão que mandava eu agir assim.
Na TCC eu descobri que tinha
esquema de subjugação. No meu caso, eu não impunha minha vontade, não conseguia
dizer não para nenhum pedido, por mais que isso me prejudicasse e ficava
frustrado e com raiva por não conseguir dizer não. Descobrir que eu posso dizer
não para as pessoas foi lindo. Libertador. Dizer a sua vontade, negar um pedido
simplesmente por não querer? Antes era um absurdo para mim. Mas agora eu posso
dizer Não, porque em minha casa tem um saco de laranjas para descascar, ou que
seja o motivo para eu negar o pedido. É claro que vc muda, as pessoas às suas
volta não. Minha família me cercou dizendo que eu estava chato, egoísta, não
pensava nos outros e uma centena de outros adjetivos e manipulações para eu
voltar a ter aquele comportamento, de dizer sim para todos. Eu estava me
tornando assertivo, e uma das formas de saber se estou sendo assertivo é se o
outro fica na defensiva, se irritando ou mudando de assunto. Confesso que dava
um prazer perverso ao ser assertivo e ver o outro imediatamente ficar na
defensiva. Era o sinal que estava fazendo certo.
Me tornar mais assertivo,
perceber que eu posso ter sentimentos e demonstra-los, que isso não é um sinal
de fraqueza, falar não e não me culpar depois, foram grandes aprendizados na
TCC. Com posse disso eu pude finalmente me libertar das últimas amarras da
depressão. Meu futuro se torno claro, onde antes tudo era cinza, a tristeza
agora não era mais minha companheira. Estava bem ágil, meu curso era cada vez
mais empolgante, e a solidão deixou de ser um momento opressor e culposo, de
mais frustrações, para ser uma companheira tranquila, e boa de se trabalhar.
Fiquei 1 ano medicado. 1 ano de
terapia para me sentir apto pra falar que estou curado da depressão. Estive na
merda dos sentimentos, me achando sem saída, para então tomar as rédeas de
minha vida, a posse completa! Aprendi tanto, mas tanto, que estas páginas não
são suficientes para descrever.
E o rapaz que iniciou o
tratamento jamais imaginaria que ia ficar tão bom, tão saudável, tão apto a
viver a vida! E efetivamente ter controle do que cabe a ele. E isso, isso não
tem preço.