domingo, 25 de março de 2018

Eu me basto?

Depois de algumas décadas essa pergunta fica no meu pensamento provocando momentos de certezas e incertezas, colocando de uma maneira sorrateira meus medos em xeque mate. Sim, foram décadas que posso dividir em etapas, onde meu companheiro invisível, se manteve escondido nas cavernas intransponíveis, de tudo que aprendi como uma fiel aprendiz, de pessoas em quem minha alma ingênua e crédula depositou toda sua esperança. Infância, adolescência, juventude tendo como resultado meus 65 anos. Sim, sou uma jovem senhora que caminha pela vida ainda avida de conhecimentos, de encaixes, de dúvidas e receios. Sinto uma falta imensa de laços que não fiz, de amigos que estejam abertos à sinceridade que é a grande cereja do bolo nas construções saudáveis de qq relacionamento. Sinto falta, mas ainda espero envelhecer com amigos que me enxerguem além das minhas rugas. Revisitando alguns momentos vividos, descobri que o que tenho hj é o resultado das minhas escolhas e que superei o lugar comum de colocar a culpa no outro . Aprendi a dialogar comigo mesma nos silêncios intermináveis da madrugada, e neles, também descobri o tanto que tenho que me presentear com delicadezas, com sonhos, com metas. Para trás foram ficando pedaços meus num desfolhar-se cheia de medos, contudo acreditando na necessidade real de continuar, apesar das dores físicas e emocionais. Me reiventei... procurei caminhos que nunca imaginei percorrer. Fiz um vestibular para jornalismo, o curso por motivos bem aceitos por mim não foi concluído mas não doeu, pq continuei aprendendo na prática observando aqui e acolá. Perdi o medo de falar em público, deixei para trás alguns medos que foram em décadas verdadeiros fantasmas. Ainda tenho medos, porém sigo sem medo de enfrentá-los. Descobri o respeito por mim, por minhas dores depois de viver dois relacionamentos abusivos, distintos, mas nem um pouco menos torturante. Comecei a trabalhar em mim o finito e com isso a aceitação das chegadas e partidas. Descobri a liberdade de amar ou não amar independente dos laços sanguíneos, pois sei que o amor não é uma imposição de laços, mas a verdadeira construção de laços de variadas cores e formas. Me aceite que lhe aceito. Me ame que lhe amo e vamos brindar cada conquista, cada gesto de respeito. Reconheço o muito que ainda terei que lutar e vencer pois sou uma mulher em constante crescimento e descobertas, tentando superar as dores para poder continuar atenta aos sinais que sempre estão ao nosso entorno. Fêmea, mulher, mãe, avó, dois casamentos, sonhos desfeitos, e vivendo toda a realidade que a vida me apresentou. Vivi mais por todos e menos por mim. Não desisti de ter um coração que bate no compasso da emoção. Não desisti da minha matemática onde divido para depois somar. Não desisti de acreditar que só através do amor existe a possibilidade de ser um ser humano melhor. Não desisti de mim, tampouco das muitas Marias que moram e conversam dentro de mim. Eu me basto? Por enquanto penso que sim. Por enquanto acumulei reservas para sobreviver me respeitando e alimentando a minha liberdade de ser EU simplesmente.