quarta-feira, 19 de outubro de 2016

J. M. S. - Perdão

Sou muito sincera quando digo que não imaginei em nenhum momento que pudesse te ofender apenas por comentar que tinha opiniões distintas em relação a fé. Não tive e não me vejo em condições de ter algum dia um diálogo que te diminua sob qualquer circunstância, mas a partir do que houve pude entender um pouco mais de mim. Uma pobre visão egoísta, mas transformadora.
Hoje sei que por me sentir tão ferida, me transformei em alguém capaz de provocar feridas. Não, eu não sabia que era assim e quantos devem ter sido os momentos que feri e não dei importância por estar tão fechada num mundo que só eu enxergava.
Em nenhum momento questionei *Carlos sobre o que houve e entendi também o silêncio dele como parte de alguém que eu não conheço tanto mas amo e respeito. E me descobri também capaz de não culpar o outro por algo que era de minha responsabilidade. Não assumindo uma culpa diante do que aconteceu, mas assumindo a responsabilidade que me cabe diante do ocorrido como sendo a única que me pertence. Revendo meus passos e me preparando para finalmente agir de forma diferente com o outro, assumindo que tenho sim essa capacidade de ferir e que é algo que me incomoda profundamente, portanto deve ser repensado.
Eu nunca me senti amada até pertencer a um lugar e dentre todos que hoje pertenço, foi com vocês que me percebi pela primeira vez. Apesar de ter sentido e gostado eu não sabia agir diferente e por ser aceita, achei que poderia continuar agindo como eu achava que fosse, mas eu sempre fui amarga, tanto que aprendi que era a única forma de ser. Mas na verdade não é. 
Não sei se estou conseguindo me fazer entender direito, até porque tem sido difícil pra mim mesma entender. 
Busquei não enxergar a culpa do outro em nenhum momento, olhando apenas para o que eu tenha feito e foi um exercício difícil.
Mas, o que eu estou tentando de forma tão desajeitada dizer é que diante da mágoa que causei, ainda que sem querer, me descobri melhor do que supunha ser e visitar uma parte de quem realmente sou me ajudou a moldar quem eu quero ser. 
E eu quero ser melhor. Por você que sempre me apoiou, pelos amigos que você me apresentou e pelo que eles representam pra mim, por *Márcio, que eu desejo imensamente, mais do que eu podia me imaginar capaz, que seja um homem digno, por todos que cruzarão meu caminho e por mim, que sou merecedora de merecer o carinho de alguém. 
Te amo profundamente. E por mais que sempre soubesse desse amor que vem de uma essência que não sei nomear, somente ao vê-la ferida, pude mensurar esse sentimento como sem medida e com isso merecedor de perdoar e pedir perdão e ainda assim manter o coração limpo.

Então, quero oficialmente te pedir perdão por ter te magoado num momento em que você precisava apenas ser acolhida. Embora não tenha sido minha intenção, vejo que naquele momento, opinar de forma tão agressiva e contrária se transformou em algo ruim, de uma maldade que você não merecia e que considero que ninguém mereça. Entendo que reproduzi algo que achava que era comum mesmo sabendo que também iria me ferir se acontecesse. Peço perdão por ter que pedir perdão, por não ter sido capaz de antes de te ferir, enxergar que estava estancando meu sangramento com o sangue dos outros. Peço perdão por ter sido com você ao mesmo tempo em que agradeço que tenha sido, já que de outra forma, não sei se seria capaz de enxergar as coisas desse modo. Peço perdão pelo egoísmo em estar quase feliz por ter vislumbrado uma cura para uma ferida própria através de um ferir alguém que não merecia.

domingo, 17 de julho de 2016

Gabriel Giffoni - EU SOU TRANSEXUAL

Eu tive medo.
Durante muito tempo eu tive medo, e confesso que ainda tenho, mas de uns tempos pra cá esse sufocamento interno se tornou maior do que o temor que sinto no meu dia a dia.
Eu tenho uma declaração pra fazer. EU SOU TRANSEXUAL! E agora, somente agora, com os meus 24 anos de vivência eu pude entender o que isso significa e significou em todos os meus momentos de confusão, já que o meu corpo não correspondia com a minha mente.
Eu me lembro que desde pequeno nunca tive aquela tendência para ser a princesinha promissora que a minha mãe sonhou quando deu à luz a uma menina.
Na minha infância, por volta dos meus nove anos de idade, logo quando eu mudei para Salvador, a diretora do colégio chamou minha mãe para conversar e começou a dizer que eu não era igual às outras meninas da minha idade, que eu não me preocupava com a minha aparência e vivia andando com os meninos e me portando como um.
Minha mãe, graças a Deus, nunca me cobrou que eu usasse vestido nem maquiagens, agradeço muito por isso.
Já na adolescência, acredito ter sido o momento “divisor de águas”, e é nessa época que a cobrança para você ser mulher ou homem é mais fortemente imposta pela sociedade. Foi exatamente nesse período que tudo aconteceu para mim, acho que foi a fase mais confusa de toda a minha vida.
Nessa fase, eu vivia em uma cidade próxima a capital (mas ainda assim era um interior), e nessa cidade, onde os padrões mais conservadores e o impiedoso cis-tema heteronormativo imperava, o simples fato de se assumir homoafetivo era motivo para perseguições e humilhações, imagine se assumir transexual?
Nessa época o meu interesse sexual pelo sexo feminino começava a despertar, e essa foi a primeira confusão porque eu não entendia o que estava acontecendo, eu sentia que não era só amizade, era um carinho maior do que isso e com desejos maiores do que isso, e eu não podia falar, eu não podia expressar, eu não podia sentir. Chegou um momento que eu não consegui mais mascarar e comecei a transparecer esse lado, foi aí que as piadinhas começaram...
Lembro de um “inimigo secreto” que participei e ganhei a minha primeira cueca. Todo mundo riu quando eu mostrei o que era, mas meus olhos brilhavam. Era a minha primeira cueca e foi uma das melhores coisas que eu ganhei porque já tinha tentado pedir a minha mãe e ela sempre me dizia não. Essa, como tinha sido “presente”, ela não reclamou e eu usei até rasgar. 
Sofria preconceito de uma garota mais velha do que eu. Ela vivia me chamando de “sapatão” (adjetivo que considero pejorativo, porque eu não era uma mulher masculinizada, eu era/sou homem!). E esse é só um pequeno exemplo.
Foi tanta pressão que comecei a acreditar que eu devia tentar me encaixar. Passei a usar brincos, roupas mais “femininas”, mas não adiantava, aquele não era eu.
Logo começou a época dos aniversários de 15 anos e com isso a imposição ainda maior de usar vestidos. Eu juro que tentei, mas quanto mais eu me produzia, mais eu deixava de me enxergar no espelho. Aquele não era eu.
Foi nesse período que surgiram o fake. Criei um perfil em um jogo e havia a opção de escolher um avatar feminino ou masculino, e eu lembro que nesse dia passei uns 30 minutos olhando para a tela do computador refletindo sobre essa decisão. Eu podia criar um perfil de menina e ser lésbica, afinal eu estava atrás de uma tela de computador, mas se eu podia ser a porra que eu quisesse, por que não ser eu mesmo? Criei um menino.
Mantive esse perfil por uns 5 anos. Aquele era o meu refúgio, minha válvula de escape, lá eu podia ser o Gabriel, sem julgamentos, sem humilhação, eu era reconhecido como um menino, tratado como menino. A minha vida virtual se tornou mais interessante que a vida real.
A coisa começou a mudar quando eu fui estudar em Salvador e a visibilidade homossexual já estava maior. Na minha sala, por exemplo, tinham 3 lésbicas assumidas e um gay.
Logo no primeiro dia de aula, um menino me perguntou se eu era hetero ou lésbica, e eu entrei em choque. Meu desejo estava tão óbvio assim? Eu respondi que tinha interesse em ficar com meninas e foi aí que passei a levantar a bandeira lésbica com toda a força na minha vida social e familiar. Eu estava me sentindo tão bem, pela primeira vez não precisa esconder a minha vontade de ficar com meninas.
Como consequência, comecei a ficar à margem da sociedade heteronormativa, sofri todos os tipos de agressões, de inúmeras pessoas conhecidas e desconhecidas, já fui expulso de lugares por estar com uma menina, ouvi xingamentos, recebi olhares de repulsa. Mas o que acho interessante é que o discurso começa sempre igual: “desculpe incomodar, não é preconceito nem nada, mas...” o que vem depois desse “mas” faz você sentir nojo da sociedade, porque é um discurso pautado puramente no preconceito que a pessoa jura não sentir.
Depois que me assumi lésbica, comecei a perceber que aquilo ainda não era suficiente, tinha algo errado. Eu tinha a versão feminina do meu lado como sempre imaginei, mas EU não era como sempre imaginei. Eu não sou lésbica!
Aquele cabelo grande não combinava com meu verdadeiro eu, não fazia parte do meu ideal. Eu parava toda vez na frente do espelho e ficava me imaginando de cabelo curto. Foram vários meses de autorreflexão, de coragem e questionamento da opinião das pessoas que eu convivia.
Quase todas as pessoas me diziam para não cortar: “Ah não corta, você vai ficar parecendo um menino” (mal sabiam elas que era essa a intenção). Tive o apoio de apenas uma pessoa, e graças a ela hoje me sinto melhor comigo mesmo. 
O tempo passou e a palavra “transexual” começou a ser mais vista na internet e na mídia como um todo. Um assunto que antes era visto como tabu, passou a ser discutido e abordado de várias maneiras e foi aí que eu comecei a me descobrir, a renascer. Eu finalmente sabia quem eu era e eu não estava sozinho.
O primeiro registro desse momento foi uma foto que coloquei no meu perfil e nela eu estava sem camisa e de boné (bem caracterizado como um homem) e durante uma semana eu perdi a conta de quantas pessoas me perguntaram se eu era transexual e eu sempre ficava estático sem saber o que responder, na verdade com medo da minha própria resposta. E foi tanta cobrança por uma resposta que eu comecei a me questionar sobre isso, e entender que se não tomasse coragem naquele momento, poderia ser que eu nunca tomasse. Sabe quando você sente que aquela força maior abre uma porta e fala “meu filho se você não entrar, você não entra nunca mais”? Foi bem isso que eu senti, e foi numa conversa franca com a minha namorada que eu chorei assumindo que realmente era.
Tá. Assumi. E agora o que a gente faz?
Eu realmente tinha renascido e não sabia o que fazer, não sabia que passo tomar e foi aí que ela sugeriu que a gente começasse a me tratar no masculino nas mensagens que trocávamos por uma semana para fazer um “teste”. Concordamos que precisava existir uma fase de adaptação, já que ninguém vai dormir com um sexo e acorda com outro, isso é fato.
Depois que você assume sua transexualidade você tem que criar uma nova imagem na cabeça das pessoas que você convivia e isso leva tempo e paciência, uma coisa que se você não tem você realmente precisa aprender a ter.
Na madrugada que nós tivemos essa conversa eu sabia que assim que o sol surgisse e falasse meu primeiro “bom dia” seria como Gabriel. Sabe aquele frio na barriga que você sente quando desce rápido de um lugar muito alto? O que eu senti foi 1000x isso, foi um misto de medo, ansiedade; uma sensação indescritível porque eu comecei a perceber o peso dessa decisão. Não é fácil, porque você sabe que vai perder pessoas com as quais você se importa, você sabe que vai começar a sofrer preconceito (pior do que já sentia) porque quanto mais você é diferente, mais você é taxado de estranho e anormal. Mas você tem que permanecer forte! Embora eu tivesse sentido tudo isso e mais um pouco naquela madrugada, uma coisa era certeza: por dentro eu estava aliviado e com aquela sensação de liberdade que realmente não tem ninguém nesse mundo que pague.
Passada essa semana de teste, eu já estava acostumado a mudar o gênero até porque fiz isso durante 5 anos com o fake e nessa mesma semana eu já tinha contado pra uns amigos mais íntimos que me apoiaram nessa nova fase e ouvi as seguintes frases “não sei porque você demorou tanto”; “eu sempre soube que você tinha essa essência”; “nenhuma novidade sobre o sol, sempre te vi como um menino”. E meu irmão que sempre foi uma peça chave para ver que não importava quantas pessoas me olhasse torto ou me julgassem, ele sempre iria estar lá para apoiar as minhas decisões.
Eu estava me sentindo completo, falava em alguns ciclos sociais no masculino onde sou tratado como Gabriel. Agem com tanta naturalidade que dá pra perceber que já passaram pelo processo de adaptação e realmente conseguem enxergar minha essência.
Mas como a vida não é fácil vieram os surtos dessa decisão tomada. Primeiro foi com a minha namorada, acho que a fiz engolir muito rápido um prato que a digestão tem que ser lenta, rs foi uma fase difícil e eu quase a perdi! Ela foi um dos pilares que estava me sustentando no momento para conseguir “colocar a cara no sol”, mas eu não podia culpá-la, afinal ela começou o relacionamento com uma “menina”, não podia exigir que ela ficasse se ela não quisesse e foi isso que eu disse, mas por mais que ela estivesse confusa, ela escolheu estar ao meu lado. Eu tinha certeza que o sentimento existia e que uma hora o gostar do ser seria maior do que um gênero e foi o que aconteceu. Depois da maré revolta, veio a calmaria e nosso barco sobreviveu e hoje ela é uma das que mais me apoia, já chorei várias e várias vezes no telefone com ela.
Depois que você se assume vem a vontade de querer gritar aos quatro cantos do mundo que você se libertou, porém não é tão simples. Uma das provas foi que eu ainda tinha que ser seletivo nesse novo processo e tinha lugares que eu era tratado como eu realmente sou e tinha lugares que eu ainda tinha que fingir ser uma coisa que eu já não era mais (faculdade/casa/amigos que ainda não sabiam).
Outro exemplo foi quando precisei procurar um emprego e consegui uma entrevista em uma padaria gourmet. Fui vestido como eu sempre vou, ou seja, com roupas masculinas, e a dor de não poder se apresentar como você realmente é já começa desde quando perguntam seu nome. Como eu poderia me apresentar no masculino se eu tinha medo que eles nem me deixassem terminar a entrevista? Sou pré-T (não hormonizado) e na época nem usava binder (faixa dos seios), então coloquei a máscara heteronormativa e segui. Consegui o emprego, mas ser tratado no feminino não é a melhor coisa depois que você se assume, e olha que isso nem era o pior: lá exigiam que as mulheres fossem maquiadas e usassem sapatilhas! Gente, eu nunca tinha usado uma sapatilha na vida!!! Só que eu precisava trabalhar.
E assim eram todos os dias: deixava pra me maquiar no trabalho porque eu ia vestido de Gabriel e lá eu me montava para parecer uma mulher cisgênera. Eu particularmente gostava do emprego, o que não gostava era de ser colocado como mulher no emprego, mas como explicar que eu era trans? Então, você se pega em uma prisão sem grade de não poder ser quem você realmente é, porque o Cistema não quer entender e é muito difícil encontrar empregos que aceitem pessoas trans, ainda mais se elas não são passáveis (trans que é lido pela sociedade pelo gênero que deseja expressar). 
E era essa mensagem que eu queria frisar antes de encerrar esta declaração sobre o meu novo eu: Eu entendo que o desconhecido, o diferente, causa medo. Somos tão acostumados com o cotidiano que nos adestramos a definir um padrão do que é ”normal” e tudo o que foge desse padrão se torna motivo de ataques de ignorância das pessoas que se negam a enxergar e entender o “novo” e isso me entristece porque é esse pensamento fechado e pequeno que faz o preconceito tomar essa proporção que assassina ou agride tanto fisicamente quanto verbalmente. Portanto, amibiguinhos vamos ser mais do que isso? Vamos amar, vamos enxergar o coleguinha gay, a coleguinha lésbica, xs coleguinhxs trans, pelo que eles são? Pelas qualidades e o caráter acima da orientação e gênero que ele expressa?
Enfim esse é o começo da nova etapa da minha vida e eu sei que tenho muito chão pela frente, muita dificuldade e preconceito, mas sei também que para cada agressão que sofro e sofrerei, para cada pessoa me olhando como se eu fosse uma aberração, vão existir o dobro de pessoas que me entenderão, me apoiarão, me deixarão confortável para mostrar quem sou de verdade!

terça-feira, 26 de abril de 2016

Inês Silva - Para além de um comercial de margarina

Eu me chamo Inês e tenho um casal de filhos,André Luis Silva e Andreia Silva. Sou casada há 30 anos com o mesmo marido - pai dos meus filhxs – e durante muito tempo, me orgulhei de ter tido uma família clássica, uma família "de comercial de margarina". Éramos “felizes” como manda o figurino em uma sociedade tradicionalista. De um lado, a solidez do meu casamento, do outro, filhos sempre estudiosos e aplicados, cercados de afeto e boas companhias. Filhxs que não se envolviam em encrencas e que, em obediência ao curso de seus próprios desenvolvimentos, acabaram por encontrar parceiros ideiais. Minha filha, a caçula, por exemplo, namorava um filho de uma grande amiga minha; meu filho, por sua vez, mantinha uma relação estável e duradoura com uma garota que havia conhecido no segundo grau. 
As coisas começaram a mudar, todavia, em janeiro de 2012. Naquela época eu não era capaz de dimensionar, mas já havia uma poderosa transformação em curso na minha casa. Algo que mudaria nossas vidas para sempre. Para melhor! Naquele ano, minha filha embarcou para Disney: férias escolares. Quando retornou, incrivelmente mais madura, sua primeira providência foi terminar o namoro. Pois é! Sem grandes rodeios, encerrou a relação e nem se deu ao trabalho de se desdobrar em explicações. Aquilo foi o primeiro choque. Verdade que Andreia sempre foi introspectiva, calada. Contudo, conseguíamos dialogar bem e conversar sobre tudo (era o que pensava). Afinal, eu era uma mãe liberal, amiga, confidente... Não eram assim que as mães deveriam ser nos “comerciais de margarina”? Então, por que um fim de relacionamento assim abrupto? Por que ela não queira falar comigo?
Então começaram a surgir as senhas e as fechaduras em nossa relação. O segredo era a tônica e esse clima de mistério me deixou perturbada. Havia uma rachadura na nossa fachada de família e aquilo, certamente, devia ser uma coisa “errada”. Bom, um dia ela saiu e deixou o computador com o email aberto... Confesso que a curiosidade foi maior do que o pudor. Respaldada pelo invasivo dever de proteção, vasculhei em sua caixa de entrada e uma mensagem em especial me chamou a atenção... O texto estava todo em inglês (nunca fui boa inglês) o que me obrigou a ir para o Google tradutor. Foi aí que descobri o que ela tanto escondia...
A realidade me desconcertou e todo o sonho começou a ruir. Lembro que tivemos uma briga horrível, violenta. Afinal, ela era o meu “bebê”... Tinha tantos planos para ela. Projetado uma vida feliz e ela, simplesmente, estava indo para o “caminho errado”. Andreia, lésbica? A amargura invadiu meu coração e me impediu de ver o quanto preconceituosa eu era. Dizia para mim mesma: não é uma questão de preconceito, já que eu aceito os de fora. Mas minha filha? Eu devia ter errado em algum momento com ela. Devia ter sido alguma coisa na criação... E as pressões externas? Como lidar com o que as pessoas começariam a falar? O que eu falaria para elas? Na família, no trabalho?
A resposta para todas essas perguntas veio sob a forma da tentativa de suicídio. Pois é... Infelizmente, em uma tarde qualquer tomei uma cartela inteira de um remédio chamado Ablok 25 (um betabloqueador para o coração). O socorro foi imediato e essa foi minha sorte. De outro jeito, eu poderia ter morrido ou ficado em estado vegetativo. Hoje eu sei que uma pessoa que passa por uma experiência como essa já não se importa com mais nada, quer apenas acabar com a dor. Eu fui egoísta e, naquela época, não tinha condições de perceber o sofrimento que estava causando aos meus filhxs e ao meu marido
Depois da tentativa de suicídio, fui a um psiquiatra, que me receitou medicamentos. Eu chorava descontroladamente, queria me esconder do mundo, sumir!
A “recuperação” lenta e gradual durou aproximadamente um ano. Não que eu tivesse de fato superado a situação, apenas havia começado a me acostumar com a dor. Que ela “quisesse ser” lésbica, tanto pior para ela, mas que ninguém soubesse. Acreditava, inclusive, na possibilidade disso ser uma fase, como um surto de rebeldia adolescente. Então, nada de grande alarde. Tudo voltaria ao curso normal, mais cedo ou mais tarde...
Não foi bem isso que aconteceu.
Um ano depois de eu ter invadido o email de minha filha, desta vez, meu filho, que estava noivo daquela mesma garota do colegial, terminou o noivado. Já dá para imaginar o que vem depois, né? Pois é... Ele me disse: mãe eu sou gay e estou apaixonado por um garoto...
O que eu fiz???
Outra tentativa de suicídio! Seria engraçado se não fosse trágico.
Tudo de novo. Médico, terapia, choro! Precisei de mais um ano – que passei me escondendo. Me escondendo de mim inclusive. Nem queria saber o quando eu estava magoando minha família. Me sentia duplamente traída e, decididamente, só pensava no meu "sofrimento".
Foi então que meu marido, aparentemente sempre muito machista e homofóbico, foi quem teve o discernimento necessário para reavivar nossos laços familiares.
Nesse meio tempo, André, meu filho – que sempre gostou de escrever e hoje é ator e dramaturgo – terminou seu primeiro romance "O Preceptor". O livro, publicado pela Editora Metanóia, que, “coincidentemente”, narra a história de um relacionamento homoafetivo fala, em especial, sobre o amor uma mãe e do que essa mulher é capaz de fazer para proteger seu filho. Ele dedicou o livro a mim e, embora tenha ficado incomodada em princípio por ser um “romance gay”, confesso que a dedicatória me deixou enternecida. Está na folha de rosto do livro um delicado “para Inês, que pôde ver em seu filho um homem concreto em sua concreta humanidade”.
Uma noite faltando uns dois meses para o lançamento ele sentou na minha cama pegou na minha mão e me disse: mãe, eu preciso de você na noite de autógrafos do meu livro. Ao lado dele, estava minha filha e os olhos deles estavam cheios de lagrimas... Então eu percebi! A ficha havia caído finalmente. Não precisava de uma família de “comercial de margarina”. Era o comercial de margarina que precisava de uma família igual a minha. Uma família de verdade, coesa, onde todos tivessem liberdade de serem o que de fato eram. Onde estava o erro? Era isso, eu sabia: tinha que sair do armário junto com eles para ajudá-los a enfrentar o mundo!
No dia do lançamento, André me apresentou uma integrante do grupo de militância pró-lgbt. Um grupo de mães que lutavam por seus filhos e que ele havia encontrado na internet. Meu filho conversou com a Majú Giorgi, Coordenadora Nacional do Mães Pela Diversidade, e quando fui apresentada a ela vi que não era a única mãe de lgbt com esse propósito: lutar por meus filhxs, por todxs xs filhxs! Aprendi no meu tempo que nunca foi uma "opção" ser lgbt e sim uma "condição. Daí, resolvi militar para além da minha casa, escancarei para o mundo e comecei a perceber que podia ajudar outras mães, outros filhxs, para que não se machucassem tanto, para que se entendesse. Depois, vieram as Paradas pelo Orgulho LGBT – imagina a minha emoção! – os enfrentamentos políticos, os embates diários para desnudar os crimes de ódio e impedir que eles acontecessem. Hoje, estou coordenadora do Mães Pela Diversidade/ Bahia, e minha função aqui é ajudar a organizar o grupo. Somos voluntárias no exercício da mais voluntária de todas as atividades já inventadas pelos seres humanos: a maternidade. Somos mães e somos mães por amor!