Depois de algumas décadas essa pergunta
fica no meu pensamento provocando momentos de certezas e incertezas, colocando
de uma maneira sorrateira meus medos em xeque mate. Sim, foram décadas que
posso dividir em etapas, onde meu companheiro invisível, se manteve escondido
nas cavernas intransponíveis, de tudo que aprendi como uma fiel aprendiz, de
pessoas em quem minha alma ingênua e crédula depositou toda sua esperança.
Infância, adolescência, juventude tendo como resultado meus 65 anos. Sim, sou
uma jovem senhora que caminha pela vida ainda avida de conhecimentos, de
encaixes, de dúvidas e receios. Sinto uma falta imensa de laços que não fiz, de
amigos que estejam abertos à sinceridade que é a grande cereja do bolo nas
construções saudáveis de qq relacionamento. Sinto falta, mas ainda espero
envelhecer com amigos que me enxerguem além das minhas rugas. Revisitando
alguns momentos vividos, descobri que o que tenho hj é o resultado das minhas
escolhas e que superei o lugar comum de colocar a culpa no outro . Aprendi a
dialogar comigo mesma nos silêncios intermináveis da madrugada, e neles, também
descobri o tanto que tenho que me presentear com delicadezas, com sonhos, com
metas. Para trás foram ficando pedaços meus num desfolhar-se cheia de medos,
contudo acreditando na necessidade real de continuar, apesar das dores físicas
e emocionais. Me reiventei... procurei caminhos que nunca imaginei percorrer.
Fiz um vestibular para jornalismo, o curso por motivos bem aceitos por mim não foi
concluído mas não doeu, pq continuei aprendendo na prática observando aqui e
acolá. Perdi o medo de falar em público, deixei para trás alguns medos que
foram em décadas verdadeiros fantasmas. Ainda tenho medos, porém sigo sem medo
de enfrentá-los. Descobri o respeito por mim, por minhas dores depois de viver
dois relacionamentos abusivos, distintos, mas nem um pouco menos torturante.
Comecei a trabalhar em mim o finito e com isso a aceitação das chegadas e
partidas. Descobri a liberdade de amar ou não amar independente dos laços
sanguíneos, pois sei que o amor não é uma imposição de laços, mas a verdadeira
construção de laços de variadas cores e formas. Me aceite que lhe aceito. Me
ame que lhe amo e vamos brindar cada conquista, cada gesto de respeito. Reconheço
o muito que ainda terei que lutar e vencer pois sou uma mulher em constante
crescimento e descobertas, tentando superar as dores para poder continuar
atenta aos sinais que sempre estão ao nosso entorno. Fêmea, mulher, mãe, avó,
dois casamentos, sonhos desfeitos, e vivendo toda a realidade que a vida me
apresentou. Vivi mais por todos e menos por mim. Não desisti de ter um coração
que bate no compasso da emoção. Não desisti da minha matemática onde divido
para depois somar. Não desisti de acreditar que só através do amor existe a
possibilidade de ser um ser humano melhor. Não desisti de mim, tampouco das
muitas Marias que moram e conversam dentro de mim. Eu me basto? Por enquanto
penso que sim. Por enquanto acumulei reservas para sobreviver me respeitando e
alimentando a minha liberdade de ser EU simplesmente.
Depoimente-se
domingo, 25 de março de 2018
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
De pai pra filha
Esta semana, uma paciente me mostrou o
diálogo que teve com o pai no WhatsApp. Fiquei totalmente encantada com
a delicadeza das palavras, e como ele - que está em outro país -
conseguiu abraçar sua filha através da forma sábia e amorosa que falou com
ela. O diálogo segue abaixo.
O pai (André*) pergunta como a filha
(Carol*) está, e ela diz:
CAROL: Meio bem, meio bosta. Achei que estar na
faculdade me responderia o que eu deveria fazer da vida, mas não é o que
acontece. E eu tenho um problema que é: eu sei o que tenho que fazer pra viver
nessa sociedade que criamos, mas ao mesmo tempo não consigo me importar o
suficiente, uma vez que só estamos no mundo por tão pouco tempo. Porque eu
devia seguir um sistema em que na maior parte do tempo eu não faço o que quero
pra morrer pouco tempo depois? Aí fico meio blá…
E aí o pai respondeu:
ANDRÉ: Entendo o que você diz sobre a
vida ser tão curta, mas é bastante longa para fazer um monte de coisas! Quando
eu tinha a sua idade comecei a escrever peças e romances pois achava que era o
melhor que eu poderia fazer desse tempo curto! Hoje só quero ter um emprego
decente para trazer você, Paulo* e Laís* para estudarem aqui e escrever peças e
romances em francês, pois a vida é muito curta mesmo. Em relação ao sistema,
como você mesma viu, somos nós que o construímos, então escolher onde e como
atuar é forçoso. Não escolher é deixar que outros o escolham por você e
contribuir para o que há de pior no sistema. Uma das ideias que me fizeram
escolher artes ao invés de engenharia, quando eu tinha sua idade, foi uns
versos que diziam: " neste circo, eu prefiro ser palhaço". E você?!
Neste circo, prefere ser o quê?!
CAROL: Você é o melhor pai do mundo,
sabia? Obrigada, estou pensando no que fazer na vida. Quando eu souber, te
digo.
ANDRÉ: Um grande beijo! Tente achar algo
pelo qual valha a pena brigar; algo que te dê luz e prazer ou que, mesmo quando
não parece a coisa mais genial do mundo, você prefere a um monte de outras.
Esqueça o que todo mundo pensa ou vai pensar (de ruim ou de bom), concentre-se
sobre você mesma fazendo aquilo, usando seu pouco tempo de existência para
realizá-lo. Dinheiro, reconhecimento, espanto, horror social, lisonjas ou
ataques, esqueça tudo mais e faça simplesmente o melhor que puder dentro das
condições que a vida te der. E, se precisar de ajuda, conte com as pessoas que
você sabe que te ama! De vez em quando, mas de vez em quando mesmo!, não faça
nada. Dê um tempo ao tempo! E também de vez em quando simplesmente ajude os
outros no que puder, ajude todo mundo mas principalmente as pessoas que você
sabe que sempre estarão lá se você precisar!
* Todos os nomes foram alterados para
proteger a identidade das pessoas citadas.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
F . M . D - UM ESTRANHO QUE TENTA HABITAR EM MIM
Não controlamos o mundo de dentro, ele é
simplesmente um livre fluxo contínuo de pensamentos; onde o real e o irreal se
confundem - tudo pode ser nada e o nada pode ser tudo. Não existem certezas,
mas, aprendizados, experiências, histórias construídas e desconstruídas.
DEVEMOS SER LIVRES e apenas aprender a navegar suavemente sobre ele, afinal,
nossas ações são o reflexo do nosso mundo interior e às vezes nos tornamos
escravos dele, mas também podemos aprender a ser um simples viajante
aproveitando e tirando o melhor de todo o caminho a ser percorrido. Não se
assuste se o medo, ansiedade entre outros sentimentos bater à sua porta; mostre
ao medo que não é preciso ter tanto medo - só o necessário para percebermos o
perigo real à nossa volta e poder evitá-lo; mostre à ansiedade que não é
necessário ter tanta ansiedade - nada é para sempre, não como pensamos, as
coisas mudam o tempo todo, e se faz necessário mudar se for preciso - viver o
novo é como nascer de novo, aprender a ser mutável é mais importante do que
viver na inércia. Viveremos em contínua evolução - esse fluxo também nunca
para. O ontem passou, o hoje está acontecendo - APROVEITE, o amanhã nos espera
e sempre há algo novo, as possibilidades são infinitas. Uma vez ouvi que caímos
simplesmente para aprendermos a nos levantar. Você pode, eu acredito em você, e
tenha certeza que existem outras pessoas que também acreditam. E quando
levantamos, nos tornamos mais fortes. Lembre-se sempre: existe um guerreiro
dentro de você, esperando apenas ser despertado; afinal, grandes batalhas são
dadas a grandes guerreiros.
Eu sou apenas mais um guerreiro travando sua
batalha - podemos estar em campos de batalha diferentes, mas a guerra é a
mesma! ! Confio em você, estarei te esperando para comemorarmos a nossa vitória.
Se expressar já é um grande começo.
Tenho 33 anos e fui diagnosticado com TOC (transtorno
obsessivo-compulsivo) mal que me atormenta há muito tempo, estou em tratamento,
mas o meu inimigo não é mais forte do que minha vontade de vencer. Estamos juntos,
e juntos somos mais fortes! Espero em breve voltar e contar sobre uma nova
visão sobre a vida!
Ninguém morre de TOC, mas ninguém vive com
TOC!
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
J. M. S. - Perdão
Sou muito
sincera quando digo que não imaginei em nenhum momento que pudesse te ofender
apenas por comentar que tinha opiniões distintas em relação a fé. Não tive e
não me vejo em condições de ter algum dia um diálogo que te diminua sob
qualquer circunstância, mas a partir do que houve pude entender um pouco mais
de mim. Uma pobre visão egoísta, mas transformadora.
Hoje sei que
por me sentir tão ferida, me transformei em alguém capaz de provocar feridas.
Não, eu não sabia que era assim e quantos devem ter sido os momentos que feri e
não dei importância por estar tão fechada num mundo que só eu enxergava.
Em nenhum
momento questionei *Carlos sobre o que houve e entendi também o silêncio dele
como parte de alguém que eu não conheço tanto mas amo e respeito. E me descobri
também capaz de não culpar o outro por algo que era de minha responsabilidade.
Não assumindo uma culpa diante do que aconteceu, mas assumindo a
responsabilidade que me cabe diante do ocorrido como sendo a única que me
pertence. Revendo meus passos e me preparando para finalmente agir de forma
diferente com o outro, assumindo que tenho sim essa capacidade de ferir e que é
algo que me incomoda profundamente, portanto deve ser repensado.
Eu nunca me
senti amada até pertencer a um lugar e dentre todos que hoje pertenço, foi com
vocês que me percebi pela primeira vez. Apesar de ter sentido e gostado eu não
sabia agir diferente e por ser aceita, achei que poderia continuar agindo como
eu achava que fosse, mas eu sempre fui amarga, tanto que aprendi que era a
única forma de ser. Mas na verdade não é.
Não sei se
estou conseguindo me fazer entender direito, até porque tem sido difícil pra
mim mesma entender.
Busquei não
enxergar a culpa do outro em nenhum momento, olhando apenas para o que eu tenha
feito e foi um exercício difícil.
Mas, o que eu
estou tentando de forma tão desajeitada dizer é que diante da mágoa que causei,
ainda que sem querer, me descobri melhor do que supunha ser e visitar uma parte
de quem realmente sou me ajudou a moldar quem eu quero ser.
E eu quero
ser melhor. Por você que sempre me apoiou, pelos amigos que você me apresentou
e pelo que eles representam pra mim, por *Márcio, que eu desejo imensamente,
mais do que eu podia me imaginar capaz, que seja um homem digno, por todos que
cruzarão meu caminho e por mim, que sou merecedora de merecer o carinho de
alguém.
Te amo
profundamente. E por mais que sempre soubesse desse amor que vem de uma
essência que não sei nomear, somente ao vê-la ferida, pude mensurar esse
sentimento como sem medida e com isso merecedor de perdoar e pedir perdão e
ainda assim manter o coração limpo.
Então, quero
oficialmente te pedir perdão por ter te magoado num momento em que você
precisava apenas ser acolhida. Embora não tenha sido minha intenção, vejo que
naquele momento, opinar de forma tão agressiva e contrária se transformou em
algo ruim, de uma maldade que você não merecia e que considero que ninguém
mereça. Entendo que reproduzi algo que achava que era comum mesmo sabendo que
também iria me ferir se acontecesse. Peço perdão por ter que pedir perdão, por
não ter sido capaz de antes de te ferir, enxergar que estava estancando meu
sangramento com o sangue dos outros. Peço perdão por ter sido com você ao mesmo
tempo em que agradeço que tenha sido, já que de outra forma, não sei se seria
capaz de enxergar as coisas desse modo. Peço perdão pelo egoísmo em estar quase
feliz por ter vislumbrado uma cura para uma ferida própria através de um ferir
alguém que não merecia.
domingo, 17 de julho de 2016
Gabriel Giffoni - EU SOU TRANSEXUAL
Eu tive medo.
Durante muito tempo eu tive medo, e confesso que ainda tenho, mas de uns tempos pra cá esse sufocamento interno se tornou maior do que o temor que sinto no meu dia a dia.
Eu tenho uma declaração pra fazer. EU SOU TRANSEXUAL! E agora, somente agora, com os meus 24 anos de vivência eu pude entender o que isso significa e significou em todos os meus momentos de confusão, já que o meu corpo não correspondia com a minha mente.
Eu me lembro que desde pequeno nunca tive aquela tendência para ser a princesinha promissora que a minha mãe sonhou quando deu à luz a uma menina.
Na minha infância, por volta dos meus nove anos de idade, logo quando eu mudei para Salvador, a diretora do colégio chamou minha mãe para conversar e começou a dizer que eu não era igual às outras meninas da minha idade, que eu não me preocupava com a minha aparência e vivia andando com os meninos e me portando como um.
Minha mãe, graças a Deus, nunca me cobrou que eu usasse vestido nem maquiagens, agradeço muito por isso.
Já na adolescência, acredito ter sido o momento “divisor de águas”, e é nessa época que a cobrança para você ser mulher ou homem é mais fortemente imposta pela sociedade. Foi exatamente nesse período que tudo aconteceu para mim, acho que foi a fase mais confusa de toda a minha vida.
Nessa fase, eu vivia em uma cidade próxima a capital (mas ainda assim era um interior), e nessa cidade, onde os padrões mais conservadores e o impiedoso cis-tema heteronormativo imperava, o simples fato de se assumir homoafetivo era motivo para perseguições e humilhações, imagine se assumir transexual?
Nessa época o meu interesse sexual pelo sexo feminino começava a despertar, e essa foi a primeira confusão porque eu não entendia o que estava acontecendo, eu sentia que não era só amizade, era um carinho maior do que isso e com desejos maiores do que isso, e eu não podia falar, eu não podia expressar, eu não podia sentir. Chegou um momento que eu não consegui mais mascarar e comecei a transparecer esse lado, foi aí que as piadinhas começaram...
Lembro de um “inimigo secreto” que participei e ganhei a minha primeira cueca. Todo mundo riu quando eu mostrei o que era, mas meus olhos brilhavam. Era a minha primeira cueca e foi uma das melhores coisas que eu ganhei porque já tinha tentado pedir a minha mãe e ela sempre me dizia não. Essa, como tinha sido “presente”, ela não reclamou e eu usei até rasgar.
Durante muito tempo eu tive medo, e confesso que ainda tenho, mas de uns tempos pra cá esse sufocamento interno se tornou maior do que o temor que sinto no meu dia a dia.
Eu tenho uma declaração pra fazer. EU SOU TRANSEXUAL! E agora, somente agora, com os meus 24 anos de vivência eu pude entender o que isso significa e significou em todos os meus momentos de confusão, já que o meu corpo não correspondia com a minha mente.
Eu me lembro que desde pequeno nunca tive aquela tendência para ser a princesinha promissora que a minha mãe sonhou quando deu à luz a uma menina.
Na minha infância, por volta dos meus nove anos de idade, logo quando eu mudei para Salvador, a diretora do colégio chamou minha mãe para conversar e começou a dizer que eu não era igual às outras meninas da minha idade, que eu não me preocupava com a minha aparência e vivia andando com os meninos e me portando como um.
Minha mãe, graças a Deus, nunca me cobrou que eu usasse vestido nem maquiagens, agradeço muito por isso.
Já na adolescência, acredito ter sido o momento “divisor de águas”, e é nessa época que a cobrança para você ser mulher ou homem é mais fortemente imposta pela sociedade. Foi exatamente nesse período que tudo aconteceu para mim, acho que foi a fase mais confusa de toda a minha vida.
Nessa fase, eu vivia em uma cidade próxima a capital (mas ainda assim era um interior), e nessa cidade, onde os padrões mais conservadores e o impiedoso cis-tema heteronormativo imperava, o simples fato de se assumir homoafetivo era motivo para perseguições e humilhações, imagine se assumir transexual?
Nessa época o meu interesse sexual pelo sexo feminino começava a despertar, e essa foi a primeira confusão porque eu não entendia o que estava acontecendo, eu sentia que não era só amizade, era um carinho maior do que isso e com desejos maiores do que isso, e eu não podia falar, eu não podia expressar, eu não podia sentir. Chegou um momento que eu não consegui mais mascarar e comecei a transparecer esse lado, foi aí que as piadinhas começaram...
Lembro de um “inimigo secreto” que participei e ganhei a minha primeira cueca. Todo mundo riu quando eu mostrei o que era, mas meus olhos brilhavam. Era a minha primeira cueca e foi uma das melhores coisas que eu ganhei porque já tinha tentado pedir a minha mãe e ela sempre me dizia não. Essa, como tinha sido “presente”, ela não reclamou e eu usei até rasgar.
Sofria preconceito de uma garota mais velha do que eu. Ela vivia me chamando de “sapatão” (adjetivo que considero pejorativo, porque eu não era uma mulher masculinizada, eu era/sou homem!). E esse é só um pequeno exemplo.
Foi tanta pressão que comecei a acreditar que eu devia tentar me encaixar. Passei a usar brincos, roupas mais “femininas”, mas não adiantava, aquele não era eu.
Logo começou a época dos aniversários de 15 anos e com isso a imposição ainda maior de usar vestidos. Eu juro que tentei, mas quanto mais eu me produzia, mais eu deixava de me enxergar no espelho. Aquele não era eu.
Foi nesse período que surgiram o fake. Criei um perfil em um jogo e havia a opção de escolher um avatar feminino ou masculino, e eu lembro que nesse dia passei uns 30 minutos olhando para a tela do computador refletindo sobre essa decisão. Eu podia criar um perfil de menina e ser lésbica, afinal eu estava atrás de uma tela de computador, mas se eu podia ser a porra que eu quisesse, por que não ser eu mesmo? Criei um menino.
Mantive esse perfil por uns 5 anos. Aquele era o meu refúgio, minha válvula de escape, lá eu podia ser o Gabriel, sem julgamentos, sem humilhação, eu era reconhecido como um menino, tratado como menino. A minha vida virtual se tornou mais interessante que a vida real.
A coisa começou a mudar quando eu fui estudar em Salvador e a visibilidade homossexual já estava maior. Na minha sala, por exemplo, tinham 3 lésbicas assumidas e um gay.
Logo no primeiro dia de aula, um menino me perguntou se eu era hetero ou lésbica, e eu entrei em choque. Meu desejo estava tão óbvio assim? Eu respondi que tinha interesse em ficar com meninas e foi aí que passei a levantar a bandeira lésbica com toda a força na minha vida social e familiar. Eu estava me sentindo tão bem, pela primeira vez não precisa esconder a minha vontade de ficar com meninas.
Como consequência, comecei a ficar à margem da sociedade heteronormativa, sofri todos os tipos de agressões, de inúmeras pessoas conhecidas e desconhecidas, já fui expulso de lugares por estar com uma menina, ouvi xingamentos, recebi olhares de repulsa. Mas o que acho interessante é que o discurso começa sempre igual: “desculpe incomodar, não é preconceito nem nada, mas...” o que vem depois desse “mas” faz você sentir nojo da sociedade, porque é um discurso pautado puramente no preconceito que a pessoa jura não sentir.
Depois que me assumi lésbica, comecei a perceber que aquilo ainda não era suficiente, tinha algo errado. Eu tinha a versão feminina do meu lado como sempre imaginei, mas EU não era como sempre imaginei. Eu não sou lésbica!
Aquele cabelo grande não combinava com meu verdadeiro eu, não fazia parte do meu ideal. Eu parava toda vez na frente do espelho e ficava me imaginando de cabelo curto. Foram vários meses de autorreflexão, de coragem e questionamento da opinião das pessoas que eu convivia.
Quase todas as pessoas me diziam para não cortar: “Ah não corta, você vai ficar parecendo um menino” (mal sabiam elas que era essa a intenção). Tive o apoio de apenas uma pessoa, e graças a ela hoje me sinto melhor comigo mesmo.
O tempo passou e a palavra “transexual” começou a ser mais vista na internet e na mídia como um todo. Um assunto que antes era visto como tabu, passou a ser discutido e abordado de várias maneiras e foi aí que eu comecei a me descobrir, a renascer. Eu finalmente sabia quem eu era e eu não estava sozinho.
O primeiro registro desse momento foi uma foto que coloquei no meu perfil e nela eu estava sem camisa e de boné (bem caracterizado como um homem) e durante uma semana eu perdi a conta de quantas pessoas me perguntaram se eu era transexual e eu sempre ficava estático sem saber o que responder, na verdade com medo da minha própria resposta. E foi tanta cobrança por uma resposta que eu comecei a me questionar sobre isso, e entender que se não tomasse coragem naquele momento, poderia ser que eu nunca tomasse. Sabe quando você sente que aquela força maior abre uma porta e fala “meu filho se você não entrar, você não entra nunca mais”? Foi bem isso que eu senti, e foi numa conversa franca com a minha namorada que eu chorei assumindo que realmente era.
Tá. Assumi. E agora o que a gente faz?
Eu realmente tinha renascido e não sabia o que fazer, não sabia que passo tomar e foi aí que ela sugeriu que a gente começasse a me tratar no masculino nas mensagens que trocávamos por uma semana para fazer um “teste”. Concordamos que precisava existir uma fase de adaptação, já que ninguém vai dormir com um sexo e acorda com outro, isso é fato.
Depois que você assume sua transexualidade você tem que criar uma nova imagem na cabeça das pessoas que você convivia e isso leva tempo e paciência, uma coisa que se você não tem você realmente precisa aprender a ter.
Na madrugada que nós tivemos essa conversa eu sabia que assim que o sol surgisse e falasse meu primeiro “bom dia” seria como Gabriel. Sabe aquele frio na barriga que você sente quando desce rápido de um lugar muito alto? O que eu senti foi 1000x isso, foi um misto de medo, ansiedade; uma sensação indescritível porque eu comecei a perceber o peso dessa decisão. Não é fácil, porque você sabe que vai perder pessoas com as quais você se importa, você sabe que vai começar a sofrer preconceito (pior do que já sentia) porque quanto mais você é diferente, mais você é taxado de estranho e anormal. Mas você tem que permanecer forte! Embora eu tivesse sentido tudo isso e mais um pouco naquela madrugada, uma coisa era certeza: por dentro eu estava aliviado e com aquela sensação de liberdade que realmente não tem ninguém nesse mundo que pague.
Passada essa semana de teste, eu já estava acostumado a mudar o gênero até porque fiz isso durante 5 anos com o fake e nessa mesma semana eu já tinha contado pra uns amigos mais íntimos que me apoiaram nessa nova fase e ouvi as seguintes frases “não sei porque você demorou tanto”; “eu sempre soube que você tinha essa essência”; “nenhuma novidade sobre o sol, sempre te vi como um menino”. E meu irmão que sempre foi uma peça chave para ver que não importava quantas pessoas me olhasse torto ou me julgassem, ele sempre iria estar lá para apoiar as minhas decisões.
Eu estava me sentindo completo, falava em alguns ciclos sociais no masculino onde sou tratado como Gabriel. Agem com tanta naturalidade que dá pra perceber que já passaram pelo processo de adaptação e realmente conseguem enxergar minha essência.
Mas como a vida não é fácil vieram os surtos dessa decisão tomada. Primeiro foi com a minha namorada, acho que a fiz engolir muito rápido um prato que a digestão tem que ser lenta, rs foi uma fase difícil e eu quase a perdi! Ela foi um dos pilares que estava me sustentando no momento para conseguir “colocar a cara no sol”, mas eu não podia culpá-la, afinal ela começou o relacionamento com uma “menina”, não podia exigir que ela ficasse se ela não quisesse e foi isso que eu disse, mas por mais que ela estivesse confusa, ela escolheu estar ao meu lado. Eu tinha certeza que o sentimento existia e que uma hora o gostar do ser seria maior do que um gênero e foi o que aconteceu. Depois da maré revolta, veio a calmaria e nosso barco sobreviveu e hoje ela é uma das que mais me apoia, já chorei várias e várias vezes no telefone com ela.
Depois que você se assume vem a vontade de querer gritar aos quatro cantos do mundo que você se libertou, porém não é tão simples. Uma das provas foi que eu ainda tinha que ser seletivo nesse novo processo e tinha lugares que eu era tratado como eu realmente sou e tinha lugares que eu ainda tinha que fingir ser uma coisa que eu já não era mais (faculdade/casa/amigos que ainda não sabiam).
Outro exemplo foi quando precisei procurar um emprego e consegui uma entrevista em uma padaria gourmet. Fui vestido como eu sempre vou, ou seja, com roupas masculinas, e a dor de não poder se apresentar como você realmente é já começa desde quando perguntam seu nome. Como eu poderia me apresentar no masculino se eu tinha medo que eles nem me deixassem terminar a entrevista? Sou pré-T (não hormonizado) e na época nem usava binder (faixa dos seios), então coloquei a máscara heteronormativa e segui. Consegui o emprego, mas ser tratado no feminino não é a melhor coisa depois que você se assume, e olha que isso nem era o pior: lá exigiam que as mulheres fossem maquiadas e usassem sapatilhas! Gente, eu nunca tinha usado uma sapatilha na vida!!! Só que eu precisava trabalhar.
E assim eram todos os dias: deixava pra me maquiar no trabalho porque eu ia vestido de Gabriel e lá eu me montava para parecer uma mulher cisgênera. Eu particularmente gostava do emprego, o que não gostava era de ser colocado como mulher no emprego, mas como explicar que eu era trans? Então, você se pega em uma prisão sem grade de não poder ser quem você realmente é, porque o Cistema não quer entender e é muito difícil encontrar empregos que aceitem pessoas trans, ainda mais se elas não são passáveis (trans que é lido pela sociedade pelo gênero que deseja expressar).
E era essa mensagem que eu queria frisar antes de encerrar esta declaração sobre o meu novo eu: Eu entendo que o desconhecido, o diferente, causa medo. Somos tão acostumados com o cotidiano que nos adestramos a definir um padrão do que é ”normal” e tudo o que foge desse padrão se torna motivo de ataques de ignorância das pessoas que se negam a enxergar e entender o “novo” e isso me entristece porque é esse pensamento fechado e pequeno que faz o preconceito tomar essa proporção que assassina ou agride tanto fisicamente quanto verbalmente. Portanto, amibiguinhos vamos ser mais do que isso? Vamos amar, vamos enxergar o coleguinha gay, a coleguinha lésbica, xs coleguinhxs trans, pelo que eles são? Pelas qualidades e o caráter acima da orientação e gênero que ele expressa?
Enfim esse é o começo da nova etapa da minha vida e eu sei que tenho muito chão pela frente, muita dificuldade e preconceito, mas sei também que para cada agressão que sofro e sofrerei, para cada pessoa me olhando como se eu fosse uma aberração, vão existir o dobro de pessoas que me entenderão, me apoiarão, me deixarão confortável para mostrar quem sou de verdade!
Foi tanta pressão que comecei a acreditar que eu devia tentar me encaixar. Passei a usar brincos, roupas mais “femininas”, mas não adiantava, aquele não era eu.
Logo começou a época dos aniversários de 15 anos e com isso a imposição ainda maior de usar vestidos. Eu juro que tentei, mas quanto mais eu me produzia, mais eu deixava de me enxergar no espelho. Aquele não era eu.
Foi nesse período que surgiram o fake. Criei um perfil em um jogo e havia a opção de escolher um avatar feminino ou masculino, e eu lembro que nesse dia passei uns 30 minutos olhando para a tela do computador refletindo sobre essa decisão. Eu podia criar um perfil de menina e ser lésbica, afinal eu estava atrás de uma tela de computador, mas se eu podia ser a porra que eu quisesse, por que não ser eu mesmo? Criei um menino.
Mantive esse perfil por uns 5 anos. Aquele era o meu refúgio, minha válvula de escape, lá eu podia ser o Gabriel, sem julgamentos, sem humilhação, eu era reconhecido como um menino, tratado como menino. A minha vida virtual se tornou mais interessante que a vida real.
A coisa começou a mudar quando eu fui estudar em Salvador e a visibilidade homossexual já estava maior. Na minha sala, por exemplo, tinham 3 lésbicas assumidas e um gay.
Logo no primeiro dia de aula, um menino me perguntou se eu era hetero ou lésbica, e eu entrei em choque. Meu desejo estava tão óbvio assim? Eu respondi que tinha interesse em ficar com meninas e foi aí que passei a levantar a bandeira lésbica com toda a força na minha vida social e familiar. Eu estava me sentindo tão bem, pela primeira vez não precisa esconder a minha vontade de ficar com meninas.
Como consequência, comecei a ficar à margem da sociedade heteronormativa, sofri todos os tipos de agressões, de inúmeras pessoas conhecidas e desconhecidas, já fui expulso de lugares por estar com uma menina, ouvi xingamentos, recebi olhares de repulsa. Mas o que acho interessante é que o discurso começa sempre igual: “desculpe incomodar, não é preconceito nem nada, mas...” o que vem depois desse “mas” faz você sentir nojo da sociedade, porque é um discurso pautado puramente no preconceito que a pessoa jura não sentir.
Depois que me assumi lésbica, comecei a perceber que aquilo ainda não era suficiente, tinha algo errado. Eu tinha a versão feminina do meu lado como sempre imaginei, mas EU não era como sempre imaginei. Eu não sou lésbica!
Aquele cabelo grande não combinava com meu verdadeiro eu, não fazia parte do meu ideal. Eu parava toda vez na frente do espelho e ficava me imaginando de cabelo curto. Foram vários meses de autorreflexão, de coragem e questionamento da opinião das pessoas que eu convivia.
Quase todas as pessoas me diziam para não cortar: “Ah não corta, você vai ficar parecendo um menino” (mal sabiam elas que era essa a intenção). Tive o apoio de apenas uma pessoa, e graças a ela hoje me sinto melhor comigo mesmo.
O tempo passou e a palavra “transexual” começou a ser mais vista na internet e na mídia como um todo. Um assunto que antes era visto como tabu, passou a ser discutido e abordado de várias maneiras e foi aí que eu comecei a me descobrir, a renascer. Eu finalmente sabia quem eu era e eu não estava sozinho.
O primeiro registro desse momento foi uma foto que coloquei no meu perfil e nela eu estava sem camisa e de boné (bem caracterizado como um homem) e durante uma semana eu perdi a conta de quantas pessoas me perguntaram se eu era transexual e eu sempre ficava estático sem saber o que responder, na verdade com medo da minha própria resposta. E foi tanta cobrança por uma resposta que eu comecei a me questionar sobre isso, e entender que se não tomasse coragem naquele momento, poderia ser que eu nunca tomasse. Sabe quando você sente que aquela força maior abre uma porta e fala “meu filho se você não entrar, você não entra nunca mais”? Foi bem isso que eu senti, e foi numa conversa franca com a minha namorada que eu chorei assumindo que realmente era.
Tá. Assumi. E agora o que a gente faz?
Eu realmente tinha renascido e não sabia o que fazer, não sabia que passo tomar e foi aí que ela sugeriu que a gente começasse a me tratar no masculino nas mensagens que trocávamos por uma semana para fazer um “teste”. Concordamos que precisava existir uma fase de adaptação, já que ninguém vai dormir com um sexo e acorda com outro, isso é fato.
Depois que você assume sua transexualidade você tem que criar uma nova imagem na cabeça das pessoas que você convivia e isso leva tempo e paciência, uma coisa que se você não tem você realmente precisa aprender a ter.
Na madrugada que nós tivemos essa conversa eu sabia que assim que o sol surgisse e falasse meu primeiro “bom dia” seria como Gabriel. Sabe aquele frio na barriga que você sente quando desce rápido de um lugar muito alto? O que eu senti foi 1000x isso, foi um misto de medo, ansiedade; uma sensação indescritível porque eu comecei a perceber o peso dessa decisão. Não é fácil, porque você sabe que vai perder pessoas com as quais você se importa, você sabe que vai começar a sofrer preconceito (pior do que já sentia) porque quanto mais você é diferente, mais você é taxado de estranho e anormal. Mas você tem que permanecer forte! Embora eu tivesse sentido tudo isso e mais um pouco naquela madrugada, uma coisa era certeza: por dentro eu estava aliviado e com aquela sensação de liberdade que realmente não tem ninguém nesse mundo que pague.
Passada essa semana de teste, eu já estava acostumado a mudar o gênero até porque fiz isso durante 5 anos com o fake e nessa mesma semana eu já tinha contado pra uns amigos mais íntimos que me apoiaram nessa nova fase e ouvi as seguintes frases “não sei porque você demorou tanto”; “eu sempre soube que você tinha essa essência”; “nenhuma novidade sobre o sol, sempre te vi como um menino”. E meu irmão que sempre foi uma peça chave para ver que não importava quantas pessoas me olhasse torto ou me julgassem, ele sempre iria estar lá para apoiar as minhas decisões.
Eu estava me sentindo completo, falava em alguns ciclos sociais no masculino onde sou tratado como Gabriel. Agem com tanta naturalidade que dá pra perceber que já passaram pelo processo de adaptação e realmente conseguem enxergar minha essência.
Mas como a vida não é fácil vieram os surtos dessa decisão tomada. Primeiro foi com a minha namorada, acho que a fiz engolir muito rápido um prato que a digestão tem que ser lenta, rs foi uma fase difícil e eu quase a perdi! Ela foi um dos pilares que estava me sustentando no momento para conseguir “colocar a cara no sol”, mas eu não podia culpá-la, afinal ela começou o relacionamento com uma “menina”, não podia exigir que ela ficasse se ela não quisesse e foi isso que eu disse, mas por mais que ela estivesse confusa, ela escolheu estar ao meu lado. Eu tinha certeza que o sentimento existia e que uma hora o gostar do ser seria maior do que um gênero e foi o que aconteceu. Depois da maré revolta, veio a calmaria e nosso barco sobreviveu e hoje ela é uma das que mais me apoia, já chorei várias e várias vezes no telefone com ela.
Depois que você se assume vem a vontade de querer gritar aos quatro cantos do mundo que você se libertou, porém não é tão simples. Uma das provas foi que eu ainda tinha que ser seletivo nesse novo processo e tinha lugares que eu era tratado como eu realmente sou e tinha lugares que eu ainda tinha que fingir ser uma coisa que eu já não era mais (faculdade/casa/amigos que ainda não sabiam).
Outro exemplo foi quando precisei procurar um emprego e consegui uma entrevista em uma padaria gourmet. Fui vestido como eu sempre vou, ou seja, com roupas masculinas, e a dor de não poder se apresentar como você realmente é já começa desde quando perguntam seu nome. Como eu poderia me apresentar no masculino se eu tinha medo que eles nem me deixassem terminar a entrevista? Sou pré-T (não hormonizado) e na época nem usava binder (faixa dos seios), então coloquei a máscara heteronormativa e segui. Consegui o emprego, mas ser tratado no feminino não é a melhor coisa depois que você se assume, e olha que isso nem era o pior: lá exigiam que as mulheres fossem maquiadas e usassem sapatilhas! Gente, eu nunca tinha usado uma sapatilha na vida!!! Só que eu precisava trabalhar.
E assim eram todos os dias: deixava pra me maquiar no trabalho porque eu ia vestido de Gabriel e lá eu me montava para parecer uma mulher cisgênera. Eu particularmente gostava do emprego, o que não gostava era de ser colocado como mulher no emprego, mas como explicar que eu era trans? Então, você se pega em uma prisão sem grade de não poder ser quem você realmente é, porque o Cistema não quer entender e é muito difícil encontrar empregos que aceitem pessoas trans, ainda mais se elas não são passáveis (trans que é lido pela sociedade pelo gênero que deseja expressar).
E era essa mensagem que eu queria frisar antes de encerrar esta declaração sobre o meu novo eu: Eu entendo que o desconhecido, o diferente, causa medo. Somos tão acostumados com o cotidiano que nos adestramos a definir um padrão do que é ”normal” e tudo o que foge desse padrão se torna motivo de ataques de ignorância das pessoas que se negam a enxergar e entender o “novo” e isso me entristece porque é esse pensamento fechado e pequeno que faz o preconceito tomar essa proporção que assassina ou agride tanto fisicamente quanto verbalmente. Portanto, amibiguinhos vamos ser mais do que isso? Vamos amar, vamos enxergar o coleguinha gay, a coleguinha lésbica, xs coleguinhxs trans, pelo que eles são? Pelas qualidades e o caráter acima da orientação e gênero que ele expressa?
Enfim esse é o começo da nova etapa da minha vida e eu sei que tenho muito chão pela frente, muita dificuldade e preconceito, mas sei também que para cada agressão que sofro e sofrerei, para cada pessoa me olhando como se eu fosse uma aberração, vão existir o dobro de pessoas que me entenderão, me apoiarão, me deixarão confortável para mostrar quem sou de verdade!
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