Em maio de 2013
fiz um depoimento sobre a minha saída de um relacionamento amoroso de 10 anos,
que me destruiu completamente. Estava em processo de reerguida, retomando a
minha auto-estima, a minha fé em mim mesma, a capacidade de confiar novamente
nas pessoas e a possibilidade de me abrir ao mundo. Hoje, passados dois anos de
meio do primeiro depoimento, resolvi fazer uma nova fala, destacando os ganhos
e os desafios com a terapia do esquema, especialmente para a minha nova vida amorosa.
Após quase um ano de encerramento de um casamento bastante abusivo, reencontrei
um velho amigo de infância e começamos a nos relacionar. Nos apaixonamos e, com
aproximadamente dois meses de namoro, ele me pediu em casamento. Fiquei
assustada e me questionei se estaria preparada para entrar tão profundamente em
uma nova relação. Estava ainda me curando das feridas do relacionamento
anterior e não me sentia pronta. Mas não deixei o medo me vencer... Aceitei e
fomos, aos pouquinhos, solidificando a nossa relação.
Mal sabia que
que a tal da “cura das feridas anteriores” não era algo simples de se fazer e
demandaria de mim e da minha terapeuta, muito empenho e habilidade para lidar
com os desafios de questionar um esquema. Estamos nos referindo aqui ao esquema de
desconfiança e abuso. Por mais que meu esposo me desse evidências de seu
interesse de estar na relação e da sua fidelidade, eu estava sempre com um
alerta ligado, pensando “E se ele me trair?”.
Eu e minha
terapeuta fomos aos poucos nos deparando com o esquema, descrevendo-o e
entendendo as suas ligações com a minha infância, com outros esquemas e com os
comportamentos que ativavam as crenças centrais que me destruíam. Acho que
talvez seja difícil pra alguém imaginar como é complicado viver sempre em
alerta, diante da necessidade de checar se seu companheiro está falando a
verdade ou se ele está te enganando, imaginar mil cenários possíveis a partir
apenas de uma frase ou evidência de que algo está “fora de lugar”.
Será se estava
mesmo fora de lugar ou foi o esquema que criou essa sensação? O esquema nos engana, ele busca o mais
simples e descompromissado fato e o transforma em uma realidade terrível, onde
só há sombras, traição e abandono. Ele precisa se manter vivo, e para tal,
busca qualquer evidência que te mostre que você precisa se proteger. E você,
tão cega pelo esquema, nem se pergunta: se proteger do que? O esquema é muito
reforçador e pra mim, representa a mais pura segurança: com esse alerta ligado,
tenho certeza que estou segura e que posso antever problemas e me proteger
deles.
Como é difícil
sair desse lugar... como é difícil sair do aconchego da certeza da proteção
oferecida pelo esquema. As crenças centrais são tão fortes, quase inabaláveis e
dão muito trabalho para serem questionadas. E no meu caso, o esquema de
desconfiança e abuso se associa com o de abandono, e eu, para me adaptar,
utilizo compensações do esquema de fracasso e subjugação. Ou seja, para não ser
abandonada ou traída e não me sentir novamente fracassada, opto pela subjugação
e pela busca da perfeição no relacionamento... quero ser perfeita para meu
marido, nem que para isso tenha que abrir mão de mim e de quem eu sou, e me
submeter às suas vontades.
Mas que situação
eu fui me meter!!! Os desafios impostos pelo esquema estão sendo encarados com
bastante tranquilidade e tenho tentado, a cada semana, ser mais forte. Quem sou
eu? Tenho tentado elevar a minha auto-estima e me empoderar a cada dia, na
certeza de que a minha melhor escolha é aprender a conviver com a incerteza.
Não terei 100% de certeza em nenhum dos atos que eu venha a “descobrir” a partir da
checagem. Assim como não tenho qualquer responsabilidade sobre estes atos: a
traição seria uma escolha dele e falaria mais sobre ele do que sobre mim.
Não posso dizer
que cheguei no ponto final aqui e que tenho muita tranquilidade no
enfrentamento desta tarefa. Mas posso dizer que estou mais forte a cada dia,
mais preparada para enfrentar os desafios lançados pelo esquema e que
certamente, estou mais feliz e mais saudável mentalmente. Encarar o esquema não
é tarefa fácil, mas certamente, é a melhor forma de aprender a conviver com
seus desfeitos e tentar transforma-los em qualidade.
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