segunda-feira, 5 de outubro de 2015

L. M. S. - Sobre a terapia do esquema


Em maio de 2013 fiz um depoimento sobre a minha saída de um relacionamento amoroso de 10 anos, que me destruiu completamente. Estava em processo de reerguida, retomando a minha auto-estima, a minha fé em mim mesma, a capacidade de confiar novamente nas pessoas e a possibilidade de me abrir ao mundo. Hoje, passados dois anos de meio do primeiro depoimento, resolvi fazer uma nova fala, destacando os ganhos e os desafios com a terapia do esquema, especialmente para a minha nova vida amorosa. Após quase um ano de encerramento de um casamento bastante abusivo, reencontrei um velho amigo de infância e começamos a nos relacionar. Nos apaixonamos e, com aproximadamente dois meses de namoro, ele me pediu em casamento. Fiquei assustada e me questionei se estaria preparada para entrar tão profundamente em uma nova relação. Estava ainda me curando das feridas do relacionamento anterior e não me sentia pronta. Mas não deixei o medo me vencer... Aceitei e fomos, aos pouquinhos, solidificando a nossa relação.
Mal sabia que que a tal da “cura das feridas anteriores” não era algo simples de se fazer e demandaria de mim e da minha terapeuta, muito empenho e habilidade para lidar com os desafios de questionar um esquema.  Estamos nos referindo aqui ao esquema de desconfiança e abuso. Por mais que meu esposo me desse evidências de seu interesse de estar na relação e da sua fidelidade, eu estava sempre com um alerta ligado, pensando “E se ele me trair?”.
Eu e minha terapeuta fomos aos poucos nos deparando com o esquema, descrevendo-o e entendendo as suas ligações com a minha infância, com outros esquemas e com os comportamentos que ativavam as crenças centrais que me destruíam. Acho que talvez seja difícil pra alguém imaginar como é complicado viver sempre em alerta, diante da necessidade de checar se seu companheiro está falando a verdade ou se ele está te enganando, imaginar mil cenários possíveis a partir apenas de uma frase ou evidência de que algo está “fora de lugar”.
Será se estava mesmo fora de lugar ou foi o esquema que criou essa sensação?  O esquema nos engana, ele busca o mais simples e descompromissado fato e o transforma em uma realidade terrível, onde só há sombras, traição e abandono. Ele precisa se manter vivo, e para tal, busca qualquer evidência que te mostre que você precisa se proteger. E você, tão cega pelo esquema, nem se pergunta: se proteger do que? O esquema é muito reforçador e pra mim, representa a mais pura segurança: com esse alerta ligado, tenho certeza que estou segura e que posso antever problemas e me proteger deles.
Como é difícil sair desse lugar... como é difícil sair do aconchego da certeza da proteção oferecida pelo esquema. As crenças centrais são tão fortes, quase inabaláveis e dão muito trabalho para serem questionadas. E no meu caso, o esquema de desconfiança e abuso se associa com o de abandono, e eu, para me adaptar, utilizo compensações do esquema de fracasso e subjugação. Ou seja, para não ser abandonada ou traída e não me sentir novamente fracassada, opto pela subjugação e pela busca da perfeição no relacionamento... quero ser perfeita para meu marido, nem que para isso tenha que abrir mão de mim e de quem eu sou, e me submeter às suas vontades.
Mas que situação eu fui me meter!!! Os desafios impostos pelo esquema estão sendo encarados com bastante tranquilidade e tenho tentado, a cada semana, ser mais forte. Quem sou eu? Tenho tentado elevar a minha auto-estima e me empoderar a cada dia, na certeza de que a minha melhor escolha é aprender a conviver com a incerteza. Não terei 100% de certeza em nenhum dos atos  que eu venha a “descobrir” a partir da checagem. Assim como não tenho qualquer responsabilidade sobre estes atos: a traição seria uma escolha dele e falaria mais sobre ele do que sobre mim.

Não posso dizer que cheguei no ponto final aqui e que tenho muita tranquilidade no enfrentamento desta tarefa. Mas posso dizer que estou mais forte a cada dia, mais preparada para enfrentar os desafios lançados pelo esquema e que certamente, estou mais feliz e mais saudável mentalmente. Encarar o esquema não é tarefa fácil, mas certamente, é a melhor forma de aprender a conviver com seus desfeitos e tentar transforma-los em qualidade.

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