Beije a alça enrolada do sutiã dela
como você beijaria seus olhos sonolentos
ou sua voz meio rouca
nas primeiras horas da manhã.
Beije os sinais
que não sabem encontrar par
no lado direito
do seu corpo -
lembre que
seus poemas favoritos
não tem simetria
ou rima.
Beije os lábios dela
sem perder a conta -
a fórmula
é simples:
esqueça a conta,
esqueça a dívida,
esqueça o prazo,
e perca todos os sentidos
e porquês
no ritmo de onda
do encontro
dos seus sorrisos.
Beije as pálpebras dela antes de dormir:
primeiro a direita,
depois a esquerda,
depois a ponta do seu nariz,
e feche os olhos
sem lembrar de apagar a luz.
Beije
devagar
cada um dos dedos das mãos dela
ao acordar,
cada pedaço dela
enlaçado a você
mesmo depois do amanhecer,
perceba que os pulsos dela
cheiram a maresia,
e esqueça
de levantar
com o pé direito -
esqueça de levantar.
Beije o canto atrás de sua orelha esquerda
de novo
e de novo
e de novo,
até seu inteiro
fazer casa ali
e esquecer de visitar o lado direito.
Beije a cicatriz em sua sobrancelha esquerda
e ame a maneira
como uma assimetria tão pequena
pode ser tão
impossivelmente
bonita.
Beije a presença dela,
o perfume dela,
os passos
e os toques
e os tiques
e os risos -
e esqueça
aos poucos
das rachaduras na calçada,
da sujeira em suas palmas,
de como nem todo mês
tem trinta dias
e nem todo dia
começa às sete.
Beije a alça enrolada do sutiã dela
e aquela mecha de cabelo fora do lugar
e lembre:
a coisa mais bonita que você já viu
quis
e sentiu
roubou o seu lado da cama
e te embalou
até a paz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário